Criado-mudo não, mesinha de cabeceira sim!

mesinha de cabeceira

Na vida tudo muda. Algumas mudanças são mais perceptíveis; enquanto outras são mais lentas, ao ponto de nem percebermos que as coisas ao redor estão se movendo.

As línguas são uma delas. Elas constituem o ser humano, afinal, é a partir da língua que falamos que criamos, interpretamos e simbolizamos o mundo. As línguas, embora sejam um edifício de signos comuns às comunidades de fala e, por isso mesmo, precisam ter uma fundação estável – se não viveríamos numa Babel – também estão em constante mudança.

As variedades linguísticas observadas entre uma região e outra, num mesmo país, são um testemunho disso. Mandioca, aipim, macaxeira denominam um mesmo objeto da realidade, por exemplo. Essa riqueza mostra como a diversidade linguística é um patrimônio cultural de uma sociedade.

E, se as sociedades estão em transformação, buscando mudanças que melhorem o convívio entre os seus membros, de forma que se aperfeiçoem para conquistar mais igualdade e justiça social, é natural que algumas palavras e expressões caiam em desuso dando lugar a outras mais vivas e em consonância com os tempos atuais.

Criado-mudo

Uma campanha lançada pela empresa de móveis e decoração Etna, em comemoração ao Dia da Consciência Negra, deixou evidente como o nome de um mobiliário encontrado na casa de todos nós nunca foi interpretado em seu valor histórico.

O vídeo de lançamento da campanha da loja mostra o racismo encontrado no móvel criado-mudo, cuja denominação foi substituída por “mesa de cabeceira”. Mas por que a Etna resolveu fazer essa alteração nominal na sua linha de móveis de quarto?

Porque “dois séculos depois, sem nos dar conta, ainda carregamos termos racistas como esse, mas sabemos que é sempre tempo de mudar e evoluir”, diz o comunicado da empresa, informado pela Carta Capital.

Fazendo uma pesquisa sobre a origem do nome “criado-mudo”, a Etna popularizou o conhecimento histórico sobre os escravos domésticos que viveram no século XIX serem chamados de criados. Essas mulheres e homens, que serviam aos seus senhores, não tinham voz e realizavam as suas tarefas mudos, como se fossem um objeto inerte ou um móvel.

Entretanto, nós somos seres de fala e é muito difícil para um ser humano – ainda que nesta época os escravos nem sequer tivessem esse estatuto – se desviar completamente desse traço que constitui a sua própria humanidade: a sua capacidade de linguagem se manifestar em uma língua que lhe permita falar, se comunicar.

Então, acontecia de quando em vez de alguns escravos simplesmente falarem. Incomodados com essa insolência, alguns senhores cortavam a língua de seus escravos. Outros sofriam punições como aprender a ficar completamente imóvel, sem se mexer, enquanto seu senhor estivesse dormindo.

Uma mesinha, criada para ficar ao lado da cabeceira da cama para apoiar objetos, aparentemente tinha a mesma função do escravo doméstico que não podia falar. Essa mesa foi chamada de “criado”. De forma que não houvesse confusão para discernir os tipos de “criado”, a mesinha ganhou uma especificação, sendo nomeada de “criado-mudo”.

Essa curiosidade histórica e linguística revela que as palavras nunca são neutras. Usá-las sempre é uma tomada de posição. Parabéns à Etna, que tomou uma atitude em respeito à diversidade e aos direitos de todos os humanos serem respeitados.

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Doutora em Estudos de Linguagem, Mestra em Linguística e Especialista em Ensino de Língua Portuguesa, escreve para GreenMe desde 2015.
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