Amazônia em pé rende 7 trilhões de reais por ano mas o governo quer legalizar o comércio de madeira nativa

Floresta amazônica

Quando se fala na Amazônia, há uma clara divergência quanto ao que fazer com a floresta. Mas e se pudéssemos usar uma língua-franca (a saber, o dinheiro) e parâmetros mais precisos para auxiliar a tomada de decisões?

De um lado, há os que afirmam que ela vale mais em pé, reconhecem a importância dos povos tradicionais e seus saberes para o equilíbrio do ecossistema, defendem a demarcação de terras e sinalizam com formas sustentáveis de geração de renda.

De outro lado, há os que consideram a Amazônia subaproveitada em seu potencial econômico, são contra as reservas para os indígenas – sob o argumento de que eles precisam se inserir nessa tal modernidade – e acreditam que o desenvolvimento da região amazônica, bem como a melhoria das condições de vida das populações que lá habitam, passa por oferecer “soluções capitalistas”, para usar as palavras do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Dois estudos, um brasileiro e outro internacional, buscaram traduzir em cifras o valor dos serviços prestados pela natureza, além de comparar os lucros das atividades produtivas – como a extração de produtos típicos, a pecuária, a mineração e a indústria madeireira. Os números impressionam: a Amazônia, em pé, rende 7 trilhões de reais por ano.

A informação é da BBC Brasil, que publicou uma reportagem sobre o assunto no último sábado, 23. Um dos pesquisadores entrevistados foi o americano Robert Constanza, professor da Crawford School of Public Policy da Universidade Nacional da Austrália, cuja especialidade é, trocando em miúdos, estimar um preço para o trabalho que a natureza presta ao mundo de graça.

Em uma empreitada que começou em meados da década de 1990, Constanza decidiu fazer uma estimativa que considerasse todos os ecossistemas do planeta, calculando o valor de serviços como regulação climática, gestão da água, controle da erosão, polinização, controle biológico, fornecimento de alimentos, combustíveis e fibras, serviços culturais e recreativos.

A conclusão foi que a natureza, no mundo inteiro, representa, em valores brutos, uma riqueza equivalente a US$ 125 trilhões de dólares por ano (ou 524 trilhões de reais), considerando números atualizados em 2014. Para se ter uma ideia, nesse mesmo ano, o PIB mundial andava na casa dos US$ 80 trilhões de dólares, ou 335 trilhões de reais. Sim, é isso mesmo, você não leu errado.

Os valores são tão chocantes que, segundo a reportagem, provocam reações de todos os lados: seja dos economistas, que duvidam que a riqueza da natureza possa superar em muito o PIB mundial; seja dos ecologistas, que discordam de uma defesa nesses termos, com cifras. Afinal, dizem eles, o valor da natureza é incalculável.

Em resposta a esse tipo de crítica, o geógrafo Paul Sutton, integrante da equipe de Constanza, argumentou:

“Queremos que as pessoas tenham estimativas confiáveis dos benefícios que recebemos da natureza, e na moeda que todo mundo entende: o dólar […] Nós concordamos, a natureza é infinitamente valiosa. Mas não a tratamos como tal […] Estamos tratando a natureza como se o seu valor fosse zero.”

Os estudos

Para dar conta de tal abrangência, o grupo de pesquisadores se baseou em estudos realizados do mundo inteiro. Dependendo do serviço, a estimativa dos valores leva em conta simplesmente os preços praticados no mercado, como no cálculo referente a toda a produção de combustível e alimento que a natureza nos oferece. Em outros casos, os números consideram um gasto que é evitado justamente porque um certo trabalho está sendo feito gratuitamente. Por exemplo: quanto custaria polinizar lavouras se as abelhas fossem impossibilitadas de realizar essa atividade?

“Se tivéssemos que substituir a polinização feita pelas abelhas por trabalho humano, para polinizar manualmente a lavoura, o custo seria US$ 200 (R$ 838) bilhões por ano”,afirmou Sutton.

Já o estudo brasileiro, conduzido por uma equipe da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avaliou o potencial econômico da floresta em valores líquidos. Por comparação, é mais modesto e conservador: apostou em valores mais baixos e se concentrou em um número menor de serviços prestados pela natureza. No entanto, é mais específico e fala de aspectos muito concretos da nossa realidade, trazendo cálculos sobre atividades presentes – e em disputa – na região Amazônica.

Ainda assim, as conclusões indicam que algumas das apostas atuais estão na contramão não só da vida dos povos tradicionais e da preservação da natureza, mas representam também um tiro no pé de quem coloca os lucros acima de tudo e de todos. Segundo a estimativa dos pesquisadores da UFMG, cada hectare de mata preservada rende 737 dólares por ano. Se essa mesma área for utilizada para a criação de gado, gerará um lucro médio de 40 dólares.

Ou seja, a atividade que mais produz queimadas no país rende cerca de 18 vezes menos que a floresta em pé.

Um livro, escrito por um historiador americano, reforça o argumento dos pesquisadores brasileiros. Em ‘A luta pela borracha no Brasil: Um estudo em história ecológica’, Dean Warren lembrou a importância do ciclo da borracha para a economia brasileira, que, à época, representou 40% das exportações do país. Nenhuma árvore precisou vir abaixo para que isso acontecesse.

A equipe da UFMG também toca em um ponto crucial: como melhorar a vida dos habitantes da região, onde se observa altos índices de pobreza e um baixo índice de Desenvolvimento Humano (IDH)?

“O IDH está ligado fortemente às políticas públicas […] Ele é baixo pois não há escolas, hospitais etc. Com o desmatamento para a pecuária, isso não muda”, argumentou o professor Raoni Rajão, um dos autores do estudo, especialista em gestão ambiental e validação econômica.

A orientação do governo brasileiro

Curiosamente, a reportagem da BBC foi publicada no mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro confirmou a intenção do governo de mexer na legislação ambiental para liberar a exportação de madeira “in natura” – ou seja, logo após o corte, sem qualquer tipo de beneficiamento – de árvores nativas da Amazônia. Atualmente, a lei só permite que se exporte dessa forma as chamadas madeiras “exóticas”, como o eucalipto e o pinus.

O argumento do presidente é que a legalização é o melhor caminho, uma vez que há um comércio ilegal e a madeira brasileira já sai do país irregularmente. Mas esse tipo de defesa pode induzir à conclusão (falsa) de que, se existe uma situação desfavorável, ora, dos males o menor, que se libere tudo então.

Por que liberar é a única resposta possível para impedir a derrubada e comercialização ilegal de árvores? Porque o governo já sinalizou há tempos de que lado está – das mineradoras, madeireiras e do agronegócio – e não tem interesse em tomar medidas que fortaleçam o monitoramento e a fiscalização.

Sinais claros disso são o enfraquecimento do Ibama e o silenciamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que esteve na berlinda este ano por publicar os números recordes do desmatamento e ocupou as manchetes do jornais no mundo inteiro quando o então diretor, Ricardo Galvão, cientista de renome internacional, foi exonerado do cargo depois de sucessivos embates públicos com Bolsonaro.

Um trauma que já produz seus efeitos: há uma semana, o jornal O Estado de São Paulo noticiou que cientistas brasileiros publicaram na ‘Global Change Biology’, uma revista científica internacional, um artigo com dados sobre os incêndios na Amazônia este ano: foi o pior registro de queimadas desde 2010. No entanto, nem todos os pesquisadores assinaram o trabalho por receio de sofrer retaliações.

Afinal, se, meses antes, puniu-se o mensageiro pelas más notícias que anunciava, quem garante que a situação não vai se repetir?

“Alguns colaboradores declinaram da autoria para manter o anonimato […] Lamentamos que isso seja necessário e agradecemos a eles por sua importante contribuição”, escreveram os autores no final do texto.

Erika Berenguer, coautora do artigo, explicou que o grupo pretendia fazer frente à narrativa oficial a partir de dados embasados.

“O objetivo do nosso trabalho era justamente analisar a narrativa do governo na época e mostrar que ela estava errada, apresentando evidências”, disse Berenguer, pesquisadora da Universidade de Oxford e de Lancaster, no Reino Unido.

Quando o assunto é preservar a Amazônia, são muitas as divergências. Por vezes, entram em cena paixões que em nada contribuem para a busca de soluções efetivas. Mas é preciso serenidade para traçar o caminho rumo a um futuro diferente daquele que, infelizmente, se anuncia no horizonte.

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