A COP 25 anunciou ação e entregou procrastinação

Cop 25

2019 entrará para a história como o ano em que multidões no mundo inteiro, inspirados pela jovem Greta Thunberg, manifestaram-se para pressionar os líderes globais por ações que impeçam o colapso da Terra. Os cientistas são enfáticos em relação a necessidade de medidas urgentes. No entanto, em descompasso com a voz da ciência e os clamores das ruas, a 25ª conferência da ONU para o clima (COP 25), a mais longa de todas, foi marcada por impasses e se encerrou no domingo (15), com dois dias de atraso, com um acordo que empurrou para 2020 a apresentação de metas mais ambiciosas para reduzir a emissão de carbono.

Apesar do lema “Hora de Agir”, o texto final do encontro, que este ano aconteceu em Madrid, saiu com dois dias de atraso. Somente em Glasgow, na Escócia, em novembro do ano que vem, os países deverão apresentar seus planos de ação para manter a temperatura global em 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, conforme estabelecido pelo acordo de Paris em 2015.

Organizações globais ligadas ao clima manifestaram publicamente a frustração em relação à falta de vontade política para implementar as ações necessárias.

“Estou decepcionado. A comunidade internacional perdeu uma importante oportunidade para mostrar uma maior ambição para mitigação, adaptação e finanças para combater a crise climática. Não podemos desistir, e eu não vou desistir”, declarou António Guterres, secretário-geral da ONU.

A ativista Greta Thumberg disse que não desistiria de lutar, embora a COP 25 estivesse “desmoronando”:

“Parece que #cop25 em Madri está desmoronando agora. A ciência é clara, mas a ciência está sendo ignorada. Aconteça o que acontecer, nunca desistiremos. Nós apenas começamos”, escreveu no Twitter.

A diretora-executiva do Greenpeace International, Jennifer Morgan, afirmou que

“O Acordo de Paris pode ter sido a vítima de uma disputa entre um pequeno grupo de economias poderosas que emitem carbono. Mas eles estão no lado errado desse confronto, no lado errado da história”.

Uma das expectativas para este ano, também adiada para 2020, era que se discutisse a regulação do mercado de carbono, o qual, desde o acordo de Paris, abre a possibilidade para que a superação de metas de redução da emissão de CO2, em qualquer país do mundo, seja revertida em créditos que podem ser comprados por aqueles que não cumprirem suas metas.

“O espírito pouco colaborativo entre os cerca de 200 países presentes na COP 25 resultou numa clara falta de ambição coletiva, postergando para 2020 as decisões sobre mercado de carbono e apoio financeiro para países pobres atingidos pela crise climática”, disse Karen Oliveira ao G1, Coordenadora de Conservação e Desenvolvimento da ONG The Nature Conservacy. “Países como Estados Unidos, junto com Austrália, Índia, China, Índia, Rússia e o próprio Brasil acabaram por reforçar posturas confrontacionais, que não colaboraram para o consenso na tomada de decisões”, acrescentou.

O papel do Brasil

A posição do Brasil no encontro foi particularmente criticada devidos aos obstáculos criados para a aprovação de tópicos que recomendam o estímulo a pesquisas científicas para investigar a relação dos oceanos e do uso da terra com a crise climática. Conforme noticiado pela BBC, o Brasil, por fim, permitiu que os temas entrassem na redação final, cedendo às pressões feitas por países como Rússia, Chile, Argentina, Austrália, Tuvalu e Belize, além da União Europeia.

“O resultado desta Cop25 traz sentimentos mistos e está bem longe do que a ciência nos diz ser necessário”, declarou Laurence Tubiana, da Fundação Europeia do Clima e um dos responsáveis por arquitetar o Acordo de Paris. “Países importantes que precisavam ser ativos em Madrid não atingiram as expectativas, mas graças a uma aliança progressista de pequenos países insulares, europeus, africanos e latino-americanos, nós conseguimos o melhor resultado possível, contra a vontade dos grandes poluidores”, afirmou.

O ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles escreveu em sua conta no Twitter que a COP 25 “não deu em nada” e acusou os países ricos de “apontarem o dedo” para o resto do mudo e exigirem medidas, mas recuarem na “hora de colocar a mão no bolso”.

Em entrevista para a Globo News, Salles disse que o objetivo do Brasil foi marcar posição em relação ás emissões de carbono e não “desviar” para outros temas.

Em meio à frustração geral com o adiamento de decisões importantes por parte dos líderes globais, houve alguns aspectos positivos em 2019 na opinião de Alice Amorim Vogas, coordenadora de Política Climática e Engajamento do Instituto Clima e Sociedade (ICS). Em termos globais, ela destacou a pressão da sociedade civil.

“O ponto mais positivo foi a demonstração de que, para além da Greta, há pressão grande da sociedade civil, das ruas, para que haja ações mais ambiciosas”, disse, em entrevista ao G1. “Essa manifestação social e democrática esteve sempre presente do lado de fora e também dentro. As negociações internacionais estão ganhando ‘caldo’, atração social.”

Quanto ao Brasil, especificamente, Vargas chamou a atenção para a participação de outros atores políticos e sociais mesmo em meio a um cenário de marcantes retrocessos:

“A despeito de toda a ação de desmantelamento da política ambiental [no Brasil], houve comparecimento em massa de governadores, prefeitos e do presidente do Congresso [senador Davi Alcolumbre] e demonstrações claras de que a sociedade brasileira continua se esforçando para ter o protagonismo global nessa agenda”, afirmou.

Se, por um lado, não há motivo para celebração, por outro, tudo indica que não haverá recuo por parte da sociedade e, sobretudo, em relação ao engajamento das novas gerações. Que em meio a tantas derrotas, os sinais de 2019 sirvam de estímulo para que se siga em frente.

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